A universalização do saneamento no Brasil depende de soluções que considerem as particularidades das áreas rurais, onde a dispersão populacional, os custos de implantação e a falta de planejamento dificultam o acesso à água e ao esgotamento sanitário. O desafio vai além da infraestrutura e exige modelos de gestão sustentáveis, financiamento e participação das comunidades.
O tema foi debatido no 37º Encontro Técnico AESabesp/Fenasan 2026, em uma mesa coordenada por Eliana Kitahara, articuladora do G9 Saneamento Rural, e moderado por Monica Bicalho, coordenadora da Câmara Temática de Saneamento Rural da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), com a participação de representantes da regulação, dos municípios e do Ministério Público.
Segundo Esmeraldo Pereira Santos, presidente da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae), apenas 22,9% da população rural têm acesso à rede de água, contra 92% nas áreas urbanas. No esgotamento sanitário, a cobertura por rede coletora é de apenas 4,8%.
“A dispersão populacional não é um obstáculo, mas um convite à criatividade e inovação”, disse. Ele defendeu soluções descentralizadas, como fossas sépticas biodigestoras, sistemas modulares e captação de água da chuva, além de investimentos e fortalecimento dos serviços municipais.
Já Rodrigo Sanches Garcia, Promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo – GAEMA/Campinas, enfatizou que a ausência de planejamento específico compromete os avanços. De acordo com ele, muitos planos municipais reproduzem modelos urbanos sem considerar as necessidades rurais. “Falar sobre saneamento rural é falar também sobre igualdade”, disse.
Garcia alertou ainda para o risco de municípios assumirem a responsabilidade por moradores não atendidos pelas operadoras, sem estrutura adequada para garantir os serviços: “Os municípios não se atentaram que vai cair no colo deles pelo menos dois terços do saneamento rural.”

A sustentabilidade financeira também foi tratada no debate. Alexandre Anderáos, Superintendente Adjunto de Regulação de Saneamento Básico da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), ressaltou que o planejamento precisa contemplar implantação, operação, manutenção e fontes de custeio.
“O custeio durante toda a vida do sistema é fundamental”, disse. Na sua visão, o planejamento deve contemplar a implantação, a operação cotidiana, a reposição de equipamentos e as contingências. “O planejamento deve definir quem acompanha a solução, quem executa e como será custeado”, completou, destacando a importância de estabelecer responsabilidades e garantir a sustentabilidade financeira dos serviços nas áreas rurais.
Moderadora da mesa, Monica Bicalho reforçou a importância do envolvimento das comunidades e da disponibilidade de dados para orientar investimentos. “Regular não é apenas fiscalizar, mas criar condições para que as coisas aconteçam de forma sustentável”, destacou.
A especialista também chamou a atenção para a necessidade de ampliar o acesso a dados sobre o saneamento rural. “É preciso ter os dados e as informações do que está acontecendo nas zonas rurais para orientar o planejamento e acompanhar os projetos”, disse. Apesar dos avanços regulatórios, ela defendeu novas diretrizes que contemplem as particularidades dessas localidades. “Ter uma norma de referência específica para nossa realidade seria muito importante”, finalizou.




Encontro Técnico e Fenasan
A 37ª edição do Encontro Técnico AESabesp/ Fenasan 2026 será realizada de 20 a 22 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo. Com o tema “AESabesp 40 anos: conectando pessoas, conhecimento e inovação pelo saneamento”, o evento reunirá profissionais, especialistas, empresas, pesquisadores e representantes de instituições do setor para discutir os principais desafios e oportunidades do saneamento ambiental.
Saiba mais e acompanhe a programação: www.fenasan.com.br
Visitação à feira: gratuita





