A convergência entre investimentos estruturantes, cooperação federativa e aplicação intensiva de tecnologia marcou a solenidade de abertura do 37º Encontro Técnico da AESabesp e da Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente (Fenasan 2026), realizada no Pavilhão Branco do Expo Center Norte, na capital paulista. Sob o tema central “AESabesp 40 anos: conectando pessoas, conhecimento e inovação pelo saneamento” e com auditório lotado, a cerimônia reuniu representantes dos governos federal, estadual e municipal, além de executivos, pesquisadores e lideranças do setor, delineando os caminhos técnicos e operacionais para o cumprimento dos prazos estabelecidos pelo Marco Legal do Saneamento Básico.
Em sua edição histórica, que assinala as quatro décadas de trajetória da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), à Fenasan, juntamente com o 37º Encontro Técnico, consolida sua posição como o maior evento técnico-mercadológico do segmento nas Américas. O evento ocupa 37 mil m2 de área de exposição distribuídos em dois pavilhões, com 479 marcas expositoras nacionais e internacionais e a expectativa de receber 40 mil visitantes ao longo de três dias. A programação congrega debates voltados à universalização dos serviços de abastecimento de água potável e esgotamento sanitário, resiliência hídrica frente às mudanças climáticas e gestão integrada dos quatro eixos do saneamento: água, esgoto, drenagem e resíduos sólidos.
Antes dos pronunciamentos oficiais, os participantes puderam apreciar a apresentação do espetáculo Grape, com Fellipe Vendramim, produção de Leandro Masaferi e coreografia de Débora Polistchuck. Também houve a exibição do vídeo institucional que resgatou marcos das quatro décadas de atuação da AESabesp, enfatizando o papel da capacitação técnica, do debate regulatório e da disseminação de conhecimento no avanço da engenharia sanitária e ambiental do Brasil.

Ao abrir a rodada de discursos, o presidente da AESabesp, Agostinho Geraldes, ressaltou o simbolismo da data e situou o momento institucional do setor perante a urgência do horizonte de 2033, marco final para o atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Geraldes frisou que a celebração não se restringe à memória institucional, mas convoca as lideranças a uma atuação concreta. “Estamos nos aproximando de 2033, prazo estabelecido pelo marco legal do saneamento para o cumprimento das metas de universalização, e precisamos compreender a dimensão desse compromisso”, afirmou.
O presidente da AESabesp destacou que milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, à coleta e ao tratamento de esgoto e para mudar essa realidade, precisamos ampliar investimentos, modernizar infraestruturas, aprimorar a gestão e fortalecer a capacidade de execução dos projetos. “O ano de 2033 não pode ser apenas um prazo legal, precisa ser um compromisso concreto com a saúde, a dignidade e a qualidade de vida da população brasileira”, pontuou.
Geraldes sublinhou que a magnitude do déficit exige cooperação estrita entre o setor público, as concessionárias, a indústria de bens e serviços, a academia e a sociedade civil organizada, destacando que nenhum ente conseguirá suprir as carências de modo isolado. Em sua análise, o papel histórico da associação é atuar como ponte técnica entre esses segmentos. “Nossa responsabilidade é conectar competências, promover o diálogo e contribuir para que ideias e experiências se transformem em soluções concretas. Não somos responsáveis por executar todas as transformações que o país necessita, mas temos a responsabilidade de ajudar a construí-las, mobilizando pessoas, conhecimento e instituições em torno de um objetivo comum”, ressaltou.

O presidente da AESabesp apresentou ainda as iniciativas editoriais e institucionais lançadas na edição, entre as quais a publicação infantojuvenil As Saninhas, voltada à educação ambiental nas escolas, e a criação do Comitê Mulheres, Meio Ambiente e Saneamento (Elos Entre Elas), concebido para fomentar o avanço da liderança feminina no setor, entre outras iniciativas que alinham as ações da AESabesp e sua consolidação ao longo dos anos. “Ao celebrarmos os nossos 40 anos, temos orgulho da trajetória construída, mas sabemos que o futuro nos convoca a fazer mais”, entafizou
3 complementou: “Como presidente da AESabesp, e em nome da nossa associação, desejo que ao longo desses três dias iniciemos a construção de uma agenda propositiva que será levada pela AESabesp aos três âmbitos do Poder Público, focando em cooperar e direcionar a formulação das políticas públicas para o desenvolvimento do nosso setor. Aproveitem esses três dias para aprender, compartilhar experiências, estabelecer conexões e construir parcerias. Que cada encontro gere uma ideia, que cada ideia possa abrir caminho para uma solução e que cada solução nos aproxime do objetivo de levar saneamento a todos os brasileiros. O desafio de 2003 começa a ser vencido pelas decisões que tomamos hoje”, declarou.
Reconhecimento e compromisso com a universalização
Na sequência, o diretor-presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Carlos Piani, detalhou os desafios da operação após o processo de desestatização concluído em 2024. Piani pontuou que o conhecimento acumulado pelo corpo técnico é a base indispensável para cumprir a meta contratual de universalização na área de concessão até 2029, antecipando em quatro anos o cronograma federal. “Celebrar os 40 anos da AESabesp é reconhecer a força do conhecimento técnico e das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento do setor de saneamento brasileiro. Esse conhecimento nunca foi tão necessário quanto agora”, declarou.
O executivo informou que, com a desestatização, foi assumido o compromisso de universalizar os serviços na área de concessão até 2029. “Se alcançar a universalização até 2033 já é difícil, cumprir essa meta em 2029 é ainda mais desafiador”, disse. Para sustentar o ritmo das frentes de trabalho, o executivo indicou que os investimentos anuais foram multiplicados de maneira expressiva. “Estamos investindo três vezes mais do que investíamos anteriormente, entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões por ano, volume que representa quase metade de todo o aporte realizado pelo setor de saneamento no Brasil. Nos últimos dois anos, tivemos a oportunidade de conectar 2,5 milhões de pessoas à água potável e mais 5 milhões ao tratamento de esgoto”, informou.
Piani ponderou que a disponibilidade financeira deve vir acompanhada de planejamento rigoroso, inovação na cadeia de suprimentos e inteligência de engenharia, especialmente para enfrentar redes antigas e integrar novas áreas concedidas, a exemplo das zonas rurais do Vale do Ribeira. “O investimento, por si só, não vai entregar essa transformação. É preciso transformar recursos em obras bem executadas e garantir que essas intervenções resultem em serviços confiáveis, com água tratada, redes funcionais e recuperação dos corpos hídricos”, observou.

Na sequência, representando o prefeito Ricardo Nunes, o secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo, Marcos Monteiro, abordou a necessidade de retirar o saneamento da invisibilidade histórica e defendeu a compatibilização das redes coletoras de esgoto com os sistemas de manejo de águas pluviais. “O saneamento sempre foi relegado a um segundo plano por envolver obras que não aparecem. Após o marco legal, o tema vem mostrando sua verdadeira importância, com os gestores compreendendo que se trata de uma agenda indissociável da saúde pública e da dignidade humana. Muitas regiões do país enfrentam dificuldades para desenvolver projetos executivos, as linhas de financiamento até existem, mas a ausência de estudos estruturados inviabiliza o desembolso dos recursos”, explicou.
O secretário colocou o conhecimento acumulado pelo corpo técnico da Prefeitura de São Paulo à disposição de outros municípios e apontou áreas prioritárias de cooperação com a concessionária estadual. “Temos trabalhado de forma coordenada nas áreas de resíduos e drenagem, mas ainda precisamos avançar na compatibilização dos traçados. Um ponto de atenção é a utilização das calhas de córregos como locais de passagem de tubulações coletoras. Estamos dialogando com a Sabesp para viabilizar soluções que garantam a plena vazão das águas fluviais e, ao mesmo tempo, permitam implantar os interceptores de forma simplificada”, contou.
Monteiro também destacou os investimentos municipais no combate a alagamentos: “Entre 2021 e 2026, a administração municipal totalizou R$ 11,2 bilhões aplicados exclusivamente em obras de reservatórios, contenção de encostas em áreas de risco geológico, canalização e piscinões”.
Planejamento multissetorial e adaptação climática

Representando o governador Tarcísio de Freitas, a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), Natália Resende, ressaltou a governança intersetorial como pilar para a resiliência dos sistemas urbanos diante dos eventos hidrológicos extremos. “É imprescindível entender o saneamento conectado aos recursos hídricos, às mudanças climáticas e à preservação ambiental, de maneira harmonizada e com governança estabelecida”, enfatizou a secretária. “O saneamento precisa colocar `o dedo na ferida´, identificar o que não está funcionando e enfrentar passivos históricos que durante décadas foram deixados sem solução. Isso se faz com planejamento técnico e metas claras”, destacou.
Natália citou os instrumentos estaduais de enfrentamento climático, como o Plano de Adaptação e Resiliência Climática, que reuniu 181 ações operacionais para mitigar os impactos de estiagens prolongadas, ondas de calor e tempestades severas. Ao reiterar os números de avanço na infraestrutura paulista, a secretária endossou a meta estadual de antecipação do marco. “O Estado de São Paulo será o único estado do país a universalizar os serviços quatro anos antes do prazo federal, por meio de um planejamento conjunto que vincula abastecimento de água, esgotamento sanitário, macrodrenagem e resíduos sólidos. Esse esforço conjunto com os municípios e as concessionárias demonstra que a integração das infraestruturas é a única via viável para a segurança hídrica da população”, sustentou.

Em suas considerações, o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Daniel Gomes de Almeida Filho, representando a ministra Luciana Santos, contextualizou o saneamento básico como política de soberania nacional, erradicação de vulnerabilidades e desenvolvimento sustentável. “A universalização dos serviços exige não apenas aportes de capital, mas soluções tecnológicas aderentes às especificidades geográficas e territoriais brasileiras. A ciência, a tecnologia e a inovação assumem papel estratégico ao elevar a eficiência das plantas de tratamento, combater o índice de perdas físicas e financeiras nas redes de distribuição e fornecer ferramentas de monitoramento em tempo real”, discorreu.
O representante do MCTI ressaltou a relevância de investimentos contínuos em processos de economia circular, como o reúso direto de água, a valorização energética do biogás de esgoto e a descarbonização dos sistemas. “Ferramentas como inteligência artificial, sensores e análise preditiva de dados deixaram de ser experimentais para se tornarem imperativos operacionais. O desafio é converter essas soluções em eficiência concreta nas pontas de rede, alcançando especialmente os bairros periféricos e os pequenos municípios”, frisou.
Almeida Filho citou ainda a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, estruturada com horizonte até 2034, e mencionou a mobilização de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para fomentar pesquisas aplicadas ao saneamento em cooperação com as concessionárias e os centros universitários.
Articulação federativa e saúde preventiva

O encerramento dos pronunciamentos solenes coube ao ministro das Cidades, Antônio Vladimir Moura Lima, que posicionou o saneamento básico no centro das políticas de erradicação da pobreza e saúde pública no plano federal. Ele ressaltou que saneamento básico não é apenas infraestrutura física, é política direta de saúde pública. “O Brasil ainda registra mais de 30 milhões de cidadãos sem acesso à água tratada e mais de 90 milhões sem coleta e tratamento de efluentes sanitários. Nossas famílias e crianças continuam vulneráveis a doenças de veiculação hídrica, como hepatite, leptospirose e disenterias. Dados consolidados da Organização Mundial da Saúde indicam que cada real aplicado em saneamento reverte em quatro reais de economia direta nos sistemas de saúde pública”, afirmou.
Moura Lima explicou a diretriz de planejamento habitacional integrada adotada pela pasta: “A partir de 2023, retomamos a premissa de que moradia digna exige abastecimento, esgotamento sanitário, drenagem e mobilidade. Não é concebível produzir unidades habitacionais desconectadas das redes de infraestrutura básica”, avaliou.
O ministro apresentou o balanço de repasses e linhas de financiamento viabilizadas pelo governo federal, entre os quais mais de R$ 140 bilhões autorizados pelo Ministério das Cidades para estados e municípios desde 2023; R$ 64 bilhões selecionados especificamente para intervenções de água, esgoto, manejo de resíduos e infraestrutura rural em regiões semiáridas; e R$ 227 bilhões em investimentos contratados com o setor privado via modelagens e parcerias estruturadas com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), abrangendo cerca de 2.500 municípios e 100 milhões de pessoas.
“A meta legal fixada para 2033 é inegociável e inadiável. O poder público e a iniciativa privada precisam somar esforços de investimento, capacidade técnica e segurança jurídica. Quando uma criança se ausenta das salas de aula por contrair doenças evitáveis ligadas à contaminação da água, enfrentamos um problema que compromete o futuro socioeconômico de todo o país”, salientou Moura Lima.

Concluídos os pronunciamentos, ocorreu o tradicional desenlace da fita inaugural, formalizando o início das atividades da Fenasan 2026 e do 37º Encontro Técnico. O presidente Agostinho Geraldes realizou o corte ao lado das autoridades da mesa de abertura e dos diretores da AESabesp Reinaldo Young, Viviana Borges e Cleber dos Santos.
A conferência magna de abertura foi ministrada pelo professor da PUC-SP e pesquisador de ciências cognitivas e tecnologia, Diogo Cortiz, sobre o tema “Paradoxos e tendências da IA: oportunidades em um mundo incerto”, abordando as fronteiras entre automação de processos operacionais e tomadas de decisão na gestão de recursos críticos. Leia mais aqui.
Mais informações: clique aqui
Visita à feira

Após participar da solenidade de abertura do 37º Encontro Técnico e da Fenasan, o presidente da AESabesp, Agostinho Geraldes, visitou a feira, acompanhado pelo Ministro das Cidades, Vladimir Lima, pelo Secretário de Infraestrutura Urbana e Obras da cidade de São Paulo, Marcos Monteiro, pelo diretor-presidente da Sabesp, Carlos Piani, e pelo secretário nacional de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Ministério das Cidades, Carlos Roberto Queiroz Tomé Junior.
As autoridades visitaram os estandes da AESabesp, a experiência imersiva da Sabesp “Missão Acqua”, a Fenasan Tec Arena, o Palco Sustentabilidade e o estúdio móvel da TV Água.
Também participaram do encontro a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de SP (Semil), Natália Resende Andrade Ávila; o presidente da Aesbe, Munir Abud, e os diretores da AESabesp Reynaldo E. Young Ribeiro, Pierre Ribeiro de Siqueira, Viviana Borges.














