A busca por soluções estruturantes para a universalização do saneamento e a governança dos recursos hídricos ganhou um capítulo estratégico na Fenasan 2026. A Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp) formalizou, no dia 20 de outubro, um termo de cooperação internacional com a entidade francesa La Goutte d’Eau. O convênio estabelece uma agenda bilateral voltada ao desenvolvimento tecnológico, à transferência de conhecimento e à capacitação de homens e mulheres no setor. A ação conecta-se diretamente ao Comitê de Mulheres “Elos entre Elas”, instituído pela própria AESabesp para ampliar a representatividade feminina na liderança do segmento.
Especializada na conservação de recursos hídricos, a La Goutte d’Eau integra a Parceria Francesa pela Água (Partenariat Français pour l’Eau — PFE), comitê colegiado que representa as entidades francesas globalmente. O acordo conta com o respaldo da Embaixada da França no Brasil, da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e do Business France. De acordo com Lylian Coelho, representante da Federação Mundial de Organizações de Engenharia (WFEO) e da Rede de Mulheres na Diplomacia da Água (WWDN), a cooperação fortalece uma rede multilateral que estende laços entre a França, o Brasil e países da África, integrando entidades civis e operadoras em torno da difusão tecnológica.

A articulação começou a ser delineada há cerca de dois anos, durante a Conferência da Água da ONU (ONU Water), em Nova York. Na oportunidade, a engenheira Ester Feche integrou um painel de lideranças femininas representando a Sabesp, abordando os desafios do saneamento no Hemisfério Sul. A partir do contato com as ações de capacitação lideradas por Lilyan no continente africano, surgiu a proposta de desenhar um protocolo conjunto para preparar profissionais brasileiros frente às transformações regulatórias e operacionais da área.
O protocolo de cooperação estrutura-se em duas vertentes operacionais complementares. A primeira concentra-se na capacitação intensiva dos técnicos em temas emergentes e de fronteira. Conforme destacado nos debates do 3º Encontro das Universidades, a qualificação abordará frentes que demandam maior maturidade no mercado nacional, como o reúso de efluentes, práticas aplicadas de economia circular, monitoramento de radiação e novos índices de potabilidade da água. As especialistas pontuam que esses tópicos costumam ser debatidos apenas na fase de implantação física das obras, omitindo os desafios práticos de médio e longo prazo.
A segunda vertente prioriza mecanismos de fomento e financiamento para o saneamento rural. Tradicionalmente desassistidas pelas métricas comerciais convencionais, as áreas periféricas e rurais enfrentam barreiras severas na expansão das redes de água e esgoto.

Essa cooperação inaugura uma postura inédita para a entidade. Historicamente, as missões internacionais do setor limitavam-se a agendas comerciais e participações pontuais em feiras. Esta é a primeira vez que a Associação dos Engenheiros lidera um programa educacional estruturado com base científica, integrando a universidade ao desenvolvimento profissional. O plano prevê intercâmbios bilaterais, trazendo docentes estrangeiros para ministrar cursos no Brasil e viabilizando o envio de profissionais brasileiros para formações na França.
O papel do associativismo técnico e da sociedade civil organizada foi ressaltado por Lilyan Coelho como elemento central para garantir a perenidade das intervenções. Ela enfatizou que a cooperação internacional historicamente focou na execução civil de obras, deixando lacunas na apropriação e na autonomia local para a gestão sustentável dos ativos hídricos. A atuação associativa conecta o setor público e o privado nos territórios onde o retorno financeiro imediato não atrai concessionárias, mas onde a população necessita de atendimento básico urgente. “Sob a ótica econômica, a literatura do setor atesta que cada dólar aplicado em saneamento gera até nove dólares de retorno socioeconômico ao país”, destacou.

Além disso, Ester Feche observou que o modelo associativo democratiza o acesso ao conhecimento especializado. Enquanto em órgãos estatais ou corporações privadas as viagens de capacitação dependem de indicações institucionais restritas, na associação qualquer membro interessado em pesquisar e dominar novos temas pode usufruir dos canais de aprimoramento.
A assinatura do convênio ocorreu de forma integrada à reestruturação do 3º Encontro Técnico das Universidades. Em 2026, a comissão organizadora reposicionou os trabalhos diretamente no palco principal da conferência, integrando a grade temática geral. O painel unificado reuniu especialistas do Brasil, dos Estados Unidos e do Reino Unido, focando em pesquisa aplicada e no desenvolvimento de políticas públicas viáveis.
Conforme concluíram as porta-vozes, em um mercado cada vez mais pautado pela concorrência e metas contratuais severas, os profissionais precisam de fundamentos técnicos robustos para operar com eficiência. Com o sucesso da reformulação, a AESabesp planeja expandir as ações acadêmicas para a edição de 2027, consolidando a ciência como pilar indispensável para a universalização do saneamento no país.





